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Não posso olhar agora! - 19/05/2010

Ao fazer uma lista de equipamentos que uso quase diariamente, e mais especificamente das situações em que os uso, percebi que algumas dessas situações têm em comum o fato de não ser possível olhar para o equipamento enquanto ele é utilizado.

Diminuir o volume do rádio enquanto estou dirigindo, atender o celular e ligar o viva-voz enquanto estou ao volante, avançar uma música no MP3 player enquanto pedalo minha bicicleta, ou ligar o MP3 player enquanto estou andando com pressa para pegar o metrô são alguns exemplos de situações em que usamos uma interface sem poder olhar para ela.

Nesses momentos, dependemos totalmente do nosso tato para nos orientar dentro da interface e realizar aquilo que desejamos. Também dependemos de outros sentidos como a audição para obter o retorno de nossas ações e sabermos se elas tiveram o resultado esperado ou não.

Determinadas interfaces que dependem muito da visão se tornam complicadas de usar nessas situações. Muitas vezes você deixa de usar um aparelho pelo simples fato de não ser possível olhar para ele no exato instante em que se precisa usá-lo. Em outros momentos você pode ser induzido ao erro e acabar não conseguindo fazer o que quer ou precisa.

Por exemplo: no rádio do meu carro, existe um só botão giratório que serve para controlar volume, graves, agudos, balanço, etc. E bem no meio do botão giratório existe outro, de pressionar, que serve para alternar entre as diferentes funções do botão giratório.

Imagem de um rádio de carro

Sem olhar para o rádio, é difícil acertar os dedos ao redor do botão giratório, sem esbarrar no botão do meio. Como consequência, quando vou abaixar o volume, em vez disso sempre acabo abaixando somente os graves ou os agudos.

Nessas situações se destacam as interfaces não-visuais, ou seja, aquelas que não dependem da visão para serem utilizadas, que foram projetadas com a premissa de que o usuário não poderia olhar para elas durante a interação.

Mais um exemplo: adoro pedalar ouvindo música. Quem não gosta? Há muito tempo faço isso, desde o tempo do Walkman de fita cassete.

No tempo do Walkman, a interface não dependia da visão. Os botões tinham posicionamento padronizado e intuitivo. Para abrir e virar o lado da fita (quem tem mais de 25 anos sabe do que estou falando) não era necessário olhar, o tato resolvia tudo. Os botões estavam sempre na mesma posição, era só apertar.

Imagem de um Walkman

Depois disso tive um MP3 player de ótima qualidade, mas que tinha um pequeno visor. Tudo que o usuário fizesse na interface era respondido através do visor. Para selecionar uma música de uma banda diferente (ou de uma pasta diferente), era necessário ler as informações no visor. Complicou.

Imagem de um MP3 player

Atualmente uso um iPod Shuffle (modelo antigo, de 2008) que é extremamente fácil de usar porque não precisa olhar para ele. Os controles são percebidos e diferenciados facilmente através do tato. Além disso, todos os controles (play, pausa, avançar, retroceder, aumentar e diminuir o volume) ficam juntos, bem próximos uns dos outros.

Imagem de um iPod Shuffle modelo de 2008

Quando comecei a usar esse iPod, meus hábitos de ouvir música enquanto pedalo mudaram radicalmente. Escuto as músicas que quero com mais frequência, volto e escuto minha música preferida mais vezes, ajusto o volume para o nível ideal sempre que necessário, e quando começa uma música que não quero ouvir, mudo no mesmo instante.

Essas coisas não aconteciam com o MP3 player que eu usava antes. Não me dava ao trabalho de avançar até a música que eu queria ouvir, não mudava de música quando começava alguma que eu não queria ouvir naquele momento, e se o volume da música estava muito baixo para poder ouvir bem, normalmente eu ficava sem ouvir. Tudo porque era difícil e perigoso manipular os controles, pois eu precisaria desviar meus olhos da estrada para a interface.

Ficou muito claro para mim o quanto a experiência do usuário depende da adequação total da interface às situações em que ela é utilizada no dia a dia. Isso parece óbvio, mas não se comprova na realidade de muitos dos produtos que vemos à nossa volta todos os dias.

Fernando Oliveira
Especialista em Usabilidade

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